terça-feira, 19 de março de 2013

Apontamentos sobre Anticristo de Lars Von Trier.



“Tema o homem a mulher, quando a mulher odeia: porque, no fundo, o homem é simplesmente mau; mas a mulher é perversa”. Nietzsche

O filme se inicia com um momento da relação sexual de um casal, e  sua criança flagrando essas cenas que  vistas sob o olhar da leitura do complexo de Édipo, nos conduz ao ápice de um mau desfecho da constatação da impossibilidade de se ter a mãe diante do pai que a possui agora. Emerso na construção de cenas em preto e branco em movimento lento, vários elementos se colocam e possivelmente, consigo, significados que por vezes nos escapam, como a imagem de um urso de pelúcia amarrado pela mão a um balão voando, a atitude de bater o urso contra outro objeto e a queda do mesmo assim que a criança também cai. Três bonecos com as palavras: Pain, Grief, Dispeir, remetendo aos três mendigos que simbolizam dor, angústia e desespero e que fornecem os títulos de capítulos para o filme, simbolizados também por animais: um veado, uma raposa e um corvo que nos introduzem em uma aparente desordem e caos que se apresenta no filme, onde nossa mente é encaminhada a questionar desde nossas crenças morais, cristãs, até as circunstâncias desses preceitos na construção da nossa sociedade.
Mais a frente na trama, quando o marido ainda na tentativa de libertar sua mulher do sofrimento estando ele próprio na função do terapeuta, a leva em uma viagem de trem à uma viagem ainda mais profunda pelo que ela havia anteriormente representado como o que lhe causa medo, não é a principal fonte, mas lhe dá medo, cai na visão da floresta que não faz barulho algum, estando em cima de uma ponte, e novamente a imagem se torna lentificada, a mulher descreve estar caminhando para o outro lado da ponte, e que no lugar onde está a escuridão chega rápido, podemos fazer alusão ao seu interior, onde jaz agora escuridão, dor, luto, sendo ainda o lugar de onde ela teme e não consegue entrar. Mais uma vez nesse recorte aparece o símbolo veado que se esconde por entre as plantas, sendo então a representação da vulnerabilidade, da pureza, do choro, da dor, daquele que luta até o fim,” (SOERENSEN, & CORDEIRO, 2010. ) trazendo a imbricação desses sentimentos nesse psiquismo, ela diz ser fácil caminhar, como se quase tudo estivesse bem, ao alcançar os arredores da cabana é conduzida a se deitar na grama com alguma hesitação de sua parte se deita, e é impelida a se tornar verde, como o local, como que para se apropriar de parte do que teme, posteriormente estando nesse lugar de fato, faz um “treinamento” para enfrentar o medo, aparece a imagem dela caminhando por entre espinhos, que é exatamente o que os arredores da cabana representam para ela, um lugar difícil de caminhar, que lhe fere os pés.
A natureza é o verde, e é por isso que reluta em se deitar na grama e também em caminhar sobre ela, ela tenta negar a sua natureza mas o que tem sido feito é a imersão na mesma, somente pela natureza, sem os conceitos de culpa e medo, ela poderá se livrar dos seus sentimentos de dor, de luto.
O jardim, onde é forte o choro da criança, onde ela teme pisar é o mesmo jardim onde mostra a cena dela mesma colocando os sapatos trocados na criança que seria um contribuinte para a queda dele de cima da janela.
 A mulher apresenta resistência em manter a caminhada por entre a floresta, em direção ao jardim/cabana, e mais uma vez enquanto descansa, o marido sai pela floresta e se depara diante do cenário da natureza um cervo com a cria dependurada, remetendo mais uma vez à simbologia desse animal, que sofre em movimentos reduzidos, o terror do espectador e suas indagações emergem diante da face de espanto do marido. 
Outra cena que particularmente me chama a atenção é que enquanto dorme  as semente de carvalho ferem a mão direita do homem deixada sem consciência do lado de fora da janela, o carvalho também é carregado de significações e não me espanta ter sido usado, talvez propositalmente, nesse ponto:
A sua importância como meio de comunicação entre o Céu e a Terra, ou entre os homens e as divindades, é notória em muitas culturas. O carvalho tem uma grande relevância na simbologia bíblica. Abraão recebeu as revelações de Deus junto a um carvalho, tanto em Hébron como em Siquém. O Antigo Testamento mencionava também que a morada de Abraão em Hebrón era junto a um frondoso carvalho.
“Os celtas assumiram o carvalho como uma divindade e um símbolo de acolhimento ou lar e também uma espécie de templo,dado o seu forte tronco e os seus ramos e folhagens espessos. Por esta razão,na Irlanda, as igrejas eram chamadas de dairthech, "casas de carvalho", omesmo nome que entre os druidas significava bosque sagrado.” (infopédia)
Mais adiante a esposa fala sobre a simbologia do carvalho para si, sendo que esses demoram 100 anos para poder gerar um outro carvalho, e que suas sementes caem, e associando com o Édem fala sobre este ser descrito como belo, lugar inicial de pureza e criação, mas que pode ser o contrario, o homem também decaiu do Édem, com um ser desmerecedor dessa graça e para isso se faz necessária a vinda de um salvador. O que ela tenta colocar é que a natureza como é colocada de início, como cheia de beleza e pureza, pode ser na verdade a natureza a figura do horror.
A interpretação do marido diante desse relato é de que os pensamentos dela estão distorcendo a realidade e não o contrário. De que ela está errada, de que ele como na figura de um deus mantém a acepção tradicional das coisas e que ela está equivocada, sendo antideus, anticristo, anti-espirito-santo, que são três figuras em um só.
A partir desse momento a mulher se descobre aliviada de seus sintomas e o marido perplexo parece estar envolvido no psiquismo dela, na floresta, na cabana, parece estar completamente emaranhado, e desde antes, começa a ter revelações por meio das percepções ao redor do mundo psíquico da esposa. Ele cai de sua posição de detentor do saber, como a própria esposa vem denunciando ao longo da trama e se encontra fragilizado, mais uma vez se depara com um dos animais simbólicos em situação desesperadora, rasgando o próprio ventre, essa que é símbolo de algo que remete a sedução, rasga o ventre que é também lugar de gestação, pronunciando ainda a frase: “O caos reina.”.
A mulher em Von Trier se torna a natureza que se vinga, mas é também a detentora e apropriadora de todo sofrimento, se sacrificando ao fim.

Quando, no terceiro capitulo, aparece o tema que lhe dá titulo, a mulher se insere em uma conduta completamente obsessiva, e com a desculpa de que o homem vai fugir tenta prende-lo com um peso a seus pés. Novamente me remetendo à leitura mitológica, outros personagens tiveram seus pés furados, mas creio não haver sentido insistir em qualquer relação, tanto por não haver relações entre quem efetiva o ato e de quem sofre, seria ainda o oposto dessa relação.
Na tentativa de fuga, o marido se refugia no esconderijo que a mulher outrora havia descrito, e aí dentro encontra um corvo enterrado ainda com fôlego.
 “Corvo que marca a ideia de morte, guerra, magia o corvo estava presente nas batalhas, alimentando-se dos guerreiros mortos, o que simbolizava para os nórdicos o ceifador que levaria a Odin os escolhidos. Nesta mitologia, o corvo, então  simboliza aquele que carregará a alma dos mortos para o além.” (SOERENSEN, & CORDEIRO, 2010.)
O corvo traz a ligação entre o que é mal, o pecado e a morte.
Somos levados a todo o momento a pensar que a mulher irá matar o marido, mas no fim, após a dor que ele passa, consegue no fim, não intacto, sobreviver. A cena do mesmo colhendo frutos e comendo, pode nos levar a pensar no Édem de onde pode-se comer qualquer fruta, menos uma, a da árvore da sabedoria. As faces desfocadas de dezenas de mulheres andando morro acima, é como que pensar que toda foram “sacrificadas” em nome de algo, seja apenas por serem mulheres, ou por carregarem em sua essência aquilo que também é comum ao homem, a natureza má. 

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